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O Mundo Mudou

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10 coisas que aprendi com o modelo de inovação israelense | Parte 01

Daniela Klaiman

05/09/2019 04h00

Startup Nation

Foi com a expressão "Start-up Nation" que Israel ficou famoso, logo após o lançamento do livro de Saul Singer, no qual o autor explora o modelo de inovação israelense.

Nele, Singer fala sobre o fenômeno de que mesmo Israel sendo um país minúsculo, com 9 milhões de habitantes (menos que a cidade de São Paulo), ter 60% do seu território desértico e viver em um constante estado de guerra, o país também é um dos maiores e mais importantes pólos de tecnologia e de nascimento de startups do mundo.

Hoje são 6.000 startups, sendo quase uma startup a cada 1.500 habitantes!

Eu estudei futurismo e tecnologia na Universidade Hebraica de Jerusalém, faço viagens de inovação com grupos de empresários e estou sempre muito próxima do ecossistema israelense e por isso, resolvi reunir nesse texto os meus 10 principais aprendizados do que faz com que um país tão pequeno, com tantas adversidades e escassez de praticamente tudo seja um case global.

10) Pense e faça tudo como uma startup

Quando pensamos em uma startup, sempre nos questionamos: qual é o problema que você ou sua empresa resolvem? Agora imaginem que o problema é a sobrevivência de uma população inteira!

No meio do deserto pessoas de diversas nacionalidades tiveram que construir uma nação. Israel é isso, um país feito por imigrantes refugiados de guerra ou sionistas, que vieram de culturas, valores e estilo de vida completamente diferentes entre si, e que foram obrigados a co-habitar e se unir para melhorar sua qualidade de vida.

Imigrantes possuem características que foram essenciais para moldar o mindset israelense: não têm nada a perder e são totalmente abertos a correr riscos. Podemos dizer então que Israel é uma startup de 70 anos de idade, que viu em sua história a necessidade de se reinventar e resolver adversidades o tempo todo.

9) Inovação só acontece em um ambiente de liberdade e diversidade

Um dos principais problemas das empresas hoje é a dificuldade em inovar e sabemos que diversidade é um dos principais pilares para inovação. Vemos hoje um grupo de profissionais que veio do mesmo lugar, com os mesmos pensamentos, raça, formações universitárias, gostos, classe social e é por isso que as empresas sentem essa grande dificuldade em inovar.

Ao contrário disso, Israel é uma terra de muitas e extremas liberdades e diversidades que refletem na forma como os israelenses vivem seu cotidiano e abraçam pontos de vista diferentes.

Um exemplo disso é que lá o exército é sim lugar de mulher. Em Israel, o serviço é obrigatório para homens e mulheres e hoje existe um equilíbrio entre seus membros: 50% de homens e 50% de mulheres que exercem as mesmas funções e correm os mesmos riscos. Lá homens e mulheres são tratados iguais; afinal, um país em guerra constante não pode se dar luxo de carregar valores ultrapassados e ainda acreditar que existe um "gênero frágil."

O mesmo acontece no universo LGBTQA+. Israel é um dos países do mundo mais abertos a diversidade, sem dúvida nenhuma o único país aberto do Oriente Médio. A comunidade tem leis que protegem os direitos, o casamento entre pessoas do mesmo gênero é legalizado e possui uma das maiores paradas do orgulho LGBTQA+ do mundo.

Outro ponto é a cultura liberal onde, por exemplo, hoje já é permitido o uso da maconha para fins recreativos e também uso medicinal. Possui um universo grande de cannabusiness (mercado do cannabis) sendo desenvolvido e está sempre de olho em oportunidades emergentes de negócio.

8) O mundo todo pode ser o seu mercado

Israel não possui mercado interno e, por isso, precisou olhar para a sua economia de maneira global. É praticamente o oposto do que acontece no Brasil por exemplo, que possui um mercado interno imenso.

Diante das adversidades, Israel investiu em tecnologia e inovação, como maneira de atrair o mercado externo e poder exportar seus conhecimentos e se tornou um dos maiores experts e referência do mundo em tecnologia de ponta.

Hoje, o mundo todo consome a tecnologia israelense. Praticamente tudo que usamos e consumimos no nosso dia-a-dia tem tecnologia israelense embarcada. Sabe o tomate cereja? Criação israelense. Sabe o pen drive? Invenção israelense. E o Waze que você usa todos os dias? Empresa israelense.

7) Empreendedores mais velhos criam negócios mais sustentáveis

Diferente do restante do mundo, onde ao pensar em uma equipe de startup associamos a figura de vários jovens e amigos numa garagem construindo uma ideia milionária, por lá é bem diferente.

Os empreendedores têm uma trajetória diferente. Eles vão para a escola, depois servem o exército por três anos, fazem um ano sabático (para se recuperarem do período intenso imersos na guerra) e só depois que voltam entram para a faculdade, e aí quatro anos depois começam a empreender, muito mais velhos.

É comum ver em Israel pessoas com 50, 55 anos de idade fazendo pitches de startups. Muitos iniciando, mas outros já em sua segunda ou terceira empreitada. É o caso do professor Amnon Shashua e Ziv Aviram, fundadores da Mobileye (startup de carros autônomos que foi comprada pela Intel por US$ 15 bilhões), que logo após venderem a Mobileye cofundaram sua nova startup, a OrCam, que usa computer vision (visão computacional, em português) para ajudar deficientes visuais a "enxergar".

O que podemos aprender com esse modelo é que nem sempre o momento certo é agora. A experiência de vida e segurança do empreendedor são fatores essenciais para a criação de um negócio durável.

6) Educação é o pilar que mais impulsiona a inovação

A educação é um dos principais investimentos do governo israelense, e não é para menos que país tem um dos maiores índices do mundo de formação universitária (46% da população).

Além disso, a universidade é um dos maiores impulsionadores para o empreendedorismo, já que boa parte das instituições educacionais é conectada com o mundo de inovação, startups e tecnologia, e muitas vezes a própria universidade entra com incentivos aos alunos para criarem seus negócios próprios.

Um dos exemplos mais interessantes do papel da universidade pra mim é a questão de patentes: elas registram patentes (de produtos, idéias, projetos) e depois repassam aos seus alunos para que iniciem suas startups a partir das patentes que a universidade possui.

Não é sensacional? A universidade vira sócia do aluno, que já têm um grande caminho construído, o apoio da instituição e uma chance infinitamente maior de dar certo.

Só a título de curiosidade, a Universidade Hebraica de Jerusalém, além de ter sido fundada por Albert Einstein, é uma das universidades com o maior número de patentes registradas do mundo.

Semana que vem trago a parte 2 dessa lista – os top 5 aprendizados do modelo de inovação israelense 😉

Sobre a Autora

Futurista formada em tecnologia e futurismo pelo TIP – Transdiciplinary Innovation Program da Universidade de Jerusalém. Expert em Consumer Behavior and Trends Research, Pós-graduada em Coolhunting & Trends pela Universidade de Barcelona e foi diretora de Planejamento e Consumer Insights da Box1824 durante 5 anos. Consultora e palestrante nas áreas de inovação, pesquisa de mercado, desenvolvimento de produtos, comportamento do consumidor e transformação digital, atua junto a grandes empresas mostrando o que elas devem fazer para sobreviver a esse novo mundo que vivemos e mudanças rápidas. Co-fundados de 2 startups: Unpark e WinWin.

Sobre o Blog

É possível analisar o futuro por 2 ângulos diferentes: aquele mais imediato, que prevê os acontecimentos dentro de 0 a 5 anos e é estudado e aprendido através do comportamento das pessoas; e outro ângulo mais longínquo, que enxerga um intervalo de tempo de 5 a 50 anos e que é totalmente baseado no desenvolvimento e uso da tecnologia. A ideia desse blog é justamente analisar os dois futuros juntos e entender como a tecnologia vai influenciar nossas vidas e como a forma como vivemos e nossos valores influenciam a tecnologia, atingindo um balanço complexo, porém em linguagem simples e quase chula, para que todos possam começar a pensar no futuro e entender que somos nós os responsáveis por construir um cenário positivo para todos. Ou não. O futuro está em nossas mãos e é um assunto urgente de ser tratado hoje.